Módulo 4

Glicopeptídeos e Última Geração

Reservas estratégicas: quando os outros falham

MeropenemVancomicinaTeicoplaninaLinezolidaDaptomicinaCeftarolinaCeftazidima-Avibactam
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Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) - caricatura ilustrada de bactéria derrotada com expressão assustada

1. Introdução

A emergência de bactérias multiresistentes representa um dos maiores desafios da medicina contemporânea. Este módulo aborda os antimicrobianos reservados para situações em que as opções convencionais são insuficientes: meropenem (carbapenêmico), vancomicina e teicoplanina (glicopeptídeos), linezolida (oxazolidinona), daptomicina (lipopeptídeo), ceftarolina (cefalosporina de 5ª geração) e ceftazidima-avibactam (cefalosporina com novo inibidor de beta-lactamase).

Estes antimicrobianos devem ser utilizados de forma criteriosa, respeitando princípios de gerenciamento antimicrobiano. A prescrição inadequada acelera a seleção de resistência e compromete a eficácia destas “últimas linhas de defesa”. O conhecimento aprofundado de suas indicações, limitações e toxicidades é fundamental para o residente de pediatria que atua em ambiente hospitalar.


2. Breve Histórico

Meropenem

Os carbapenêmicos derivam da tienamicina, isolada de Streptomyces cattleya em 1976. O imipenem foi o primeiro carbapenêmico clinicamente útil (1985). O meropenem, desenvolvido para melhorar a estabilidade e reduzir o potencial convulsivante, foi introduzido em 1996 e tornou-se o carbapenêmico de escolha em pediatria.

Vancomicina e Teicoplanina

A vancomicina foi isolada de Amycolatopsis orientalis em 1956 e introduzida clinicamente em 1958, inicialmente abandonada devido à toxicidade. Ressurgiu nos anos 1980 com o aumento do MRSA. A teicoplanina, glicopeptídeo de meia-vida longa, foi desenvolvida na Itália nos anos 1980.

Linezolida

Primeira oxazolidinona aprovada clinicamente (2000), representou avanço importante por seu mecanismo de ação único e disponibilidade oral com excelente biodisponibilidade.

Daptomicina

Lipopeptídeo cíclico descoberto nos anos 1980, mas aprovado apenas em 2003 devido a dificuldades no desenvolvimento. Oferece mecanismo de ação distinto e atividade bactericida rápida contra gram-positivos.

Ceftarolina

Aprovada em 2010, é a primeira cefalosporina com atividade contra MRSA, devido à afinidade pela PBP2a.

Ceftazidima-Avibactam

Aprovada em 2015, combina a ceftazidima com o avibactam, inibidor de beta-lactamase não beta-lactâmico que inibe ESBLs, AmpC e KPC (carbapenemases de classe A).


3. Características Farmacológicas de Relevância Clínica

3.1 Mecanismos de Ação

AntimicrobianoMecanismo de AçãoEfeito
MeropenemInibe síntese da parede celular (PBPs)Bactericida
VancomicinaInibe síntese da parede celular (ligação ao D-Ala-D-Ala)Bactericida (lento)
TeicoplaninaMesmo da vancomicinaBactericida (lento)
LinezolidaInibe síntese proteica (subunidade 50S - sítio único)Bacteriostático*
DaptomicinaDespolarização da membrana celularBactericida (rápido)
CeftarolinaInibe síntese da parede celular (afinidade por PBP2a)Bactericida
Ceftazidima-AvibactamCeftazidima: inibe PBPs; Avibactam: inibe beta-lactamasesBactericida

*Linezolida pode ser bactericida contra algumas cepas de Streptococcus.

3.2 Farmacodinâmica

AntimicrobianoParâmetro farmacocinética/dinâmicaImplicação Clínica
MeropenemTempo-dependente (T>CIM >40%)Infusão prolongada otimiza eficácia
VancomicinaAUC/CIM (alvo: 400-600)Monitorização de nível sérico obrigatória
TeicoplaninaAUC/CIMDose de ataque essencial; monitorizar nível vale
LinezolidaAUC/CIM e T>CIMDose fixa; sem necessidade de ajuste renal
DaptomicinaCmax/CIM e AUC/CIMDose única diária; dose alta em infecções graves
CeftarolinaTempo-dependente (T>CIM)Intervalo 8/8h ou 12/12h
Ceftazidima-AvibactamTempo-dependente (T>CIM)Infusão em 2h recomendada

3.3 Farmacocinética Comparativa

ParâmetroMeropenemVancomicinaTeicoplaninaLinezolidaDaptomicinaCeftarolinaCeftazidima-Avibactam
ViaIVIVIV, IMIV, VOIVIVIV
Biodisponibilidade oral---100%---
Meia-vida1 h4-6 h70-100 h4-5 h8-9 h2,5 h2,5 h / 2 h
Ligação proteica2%50-55%90%31%92%20%10% / 8%
Penetração no LCRBoaModerada*BaixaBoaNãoBaixaBaixa
ExcreçãoRenalRenalRenalRenal (30%) + HepáticoRenalRenalRenal

*Vancomicina: penetração no LCR adequada apenas com meninges inflamadas

Destaques Farmacocinéticos

Vancomicina:

  • Monitorização de nível sérico obrigatória (AUC-guiada preferível)
  • Nível vale alvo: 15-20 μg/mL para infecções graves (conceito tradicional)
  • Alvo moderno: AUC/CIM 400-600 (calculado com 2 níveis ou software)
  • Nefrotoxicidade: risco aumentado com níveis >20 μg/mL

Teicoplanina:

  • Meia-vida longa permite dose única diária após dose de ataque
  • Dose de ataque: 3 doses de 10 mg/kg a cada 12h
  • Nível vale alvo: >10 μg/mL (>20 μg/mL para endocardite/osteomielite)

Linezolida:

  • Biodisponibilidade oral 100%: pode iniciar ou completar tratamento VO
  • Não requer ajuste em insuficiência renal
  • Atravessa bem a barreira hematoencefálica

Daptomicina:

  • INATIVADA pelo surfactante pulmonar: NÃO usar para pneumonia
  • Dose elevada (10-12 mg/kg) preferível em infecções graves
  • Pode elevar CPK: monitorizar semanalmente

4. Principais Usos Clínicos e Bactérias Sensíveis/Resistentes

4.1 Espectro de Cobertura

Meropenem

Bactérias sensíveis:

  • Enterobactérias (incluindo produtoras de ESBL e AmpC)
  • Pseudomonas aeruginosa (maioria)
  • Acinetobacter baumannii (muitas cepas)
  • Haemophilus influenzae
  • Streptococcus spp.
  • Staphylococcus aureus MSSA
  • Anaeróbios (incluindo Bacteroides fragilis)
  • Listeria monocytogenes (menos ativo que ampicilina)

Bactérias resistentes:

  • MRSA
  • Enterococcus faecium
  • Stenotrophomonas maltophilia
  • Enterobactérias produtoras de carbapenemases (KPC, NDM, OXA-48)
  • Pseudomonas e Acinetobacter multiresistentes

Vancomicina e Teicoplanina

Bactérias sensíveis:

  • Staphylococcus aureus (MSSA e MRSA)
  • Staphylococcus coagulase-negativos
  • Streptococcus spp.
  • Enterococcus faecalis (maioria)
  • Enterococcus faecium (cepas sensíveis)
  • Clostridioides difficile (vancomicina oral)
  • Corynebacterium spp.
  • Listeria monocytogenes

Bactérias resistentes:

  • Gram-negativos (não penetram membrana externa)
  • VRE (Enterococcus resistente à vancomicina)
  • VISA/VRSA (cepas de S. aureus com sensibilidade intermediária ou resistência à vancomicina; raros, mas emergentes)

Linezolida

Bactérias sensíveis:

  • MRSA (incluindo VISA)
  • VRE (E. faecium e E. faecalis)
  • Streptococcus pneumoniae (incluindo resistentes)
  • Staphylococcus coagulase-negativos
  • Nocardia spp.
  • Mycobacterium tuberculosis (multiresistente)

Bactérias resistentes:

  • Gram-negativos
  • Resistência emergente em Enterococcus e Staphylococcus (gene cfr, mutações 23S rRNA)

Daptomicina

Bactérias sensíveis:

  • MRSA (incluindo VISA e hVISA)
  • VRE
  • Staphylococcus coagulase-negativos
  • Streptococcus spp.
  • Enterococcus spp. (incluindo resistentes à vancomicina)

Limitações:

  • NÃO usar para pneumonia (inativada pelo surfactante)
  • Gram-negativos intrinsecamente resistentes
  • Resistência pode emergir durante tratamento (especialmente com doses baixas)

Ceftarolina

Bactérias sensíveis:

  • MRSA (afinidade pela PBP2a) - DIFERENCIAL
  • Staphylococcus aureus MSSA
  • Streptococcus pneumoniae (incluindo resistentes à penicilina)
  • Streptococcus pyogenes
  • Haemophilus influenzae
  • Moraxella catarrhalis
  • Enterobactérias sensíveis (não ESBL)

Bactérias resistentes:

  • Pseudomonas aeruginosa
  • Acinetobacter spp.
  • Enterobactérias produtoras de ESBL ou AmpC
  • Anaeróbios
  • Enterococcus spp.

Ceftazidima-Avibactam

Bactérias sensíveis:

  • Enterobactérias produtoras de ESBL
  • Enterobactérias produtoras de AmpC
  • Enterobactérias produtoras de KPC (carbapenemase classe A) - DIFERENCIAL
  • Pseudomonas aeruginosa (incluindo algumas multiresistentes)
  • Klebsiella pneumoniae carbapenemase-positiva (KPC)

Bactérias resistentes:

  • Produtores de metalo-beta-lactamases (NDM, VIM, IMP) - avibactam não inibe
  • Produtores de OXA-48 (atividade variável)
  • MRSA
  • Acinetobacter baumannii
  • Anaeróbios

4.2 Indicações Principais em Pediatria

IndicaçãoAntimicrobiano de EscolhaAlternativa
Sepse hospitalar graveMeropenem ± VancomicinaPiperacilina-Tazobactam
Infecção por ESBL (grave)MeropenemCeftazidima-Avibactam
Infecção por KPCCeftazidima-AvibactamMeropenem (dose alta) + outro ativo
Meningite hospitalarMeropenem + Vancomicina-
Infecção grave por MRSAVancomicinaDaptomicina, Linezolida
Bacteremia por MRSAVancomicina ou DaptomicinaCeftarolina
Endocardite MRSADaptomicina (dose alta)Vancomicina ± Rifampicina
Pneumonia por MRSAVancomicina ou LinezolidaCeftarolina
Osteomielite MRSAVancomicina → Linezolida (VO)Daptomicina
Infecção por VRELinezolida ou Daptomicina-
Meningite por MRSAVancomicina + RifampicinaLinezolida
Pneumonia comunitária grave (MRSA)CeftarolinaVancomicina
Infecção de pele (MRSA grave)Vancomicina, DaptomicinaCeftarolina, Linezolida
Neutropenia febril (alto risco)Meropenem ± VancomicinaPiperacilina-Tazobactam
Colite por C. difficileVancomicina VOMetronidazol (casos leves)

4.3 Padrões de Resistência Relevantes

Enterobactérias produtoras de carbapenemases (EPC):

  • KPC (classe A): sensíveis a ceftazidima-avibactam
  • NDM, VIM, IMP (metalo-beta-lactamases): resistentes a ceftazidima-avibactam
  • OXA-48: atividade variável do ceftazidima-avibactam
  • Prevalência crescente no Brasil (especialmente K. pneumoniae KPC)

MRSA:

  • Resistência mediada por PBP2a (gene mecA)
  • Sensível a: vancomicina, teicoplanina, linezolida, daptomicina, ceftarolina
  • Vigilância para VISA (CIM 4-8 μg/mL) e VRSA (CIM ≥16 μg/mL)

VRE (Enterococcus resistente à vancomicina):

  • Genes vanA (alto nível) e vanB (nível variável)
  • Opções: linezolida, daptomicina
  • Teicoplanina: ativa contra vanB, inativa contra vanA

5. Principais Regimes Terapêuticos

5.1 Meropenem

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções graves60 mg/kg/dia (máx. 3g/dia)8/8hIVConforme indicação
Meningite120 mg/kg/dia (máx. 6g/dia)8/8hIV14-21 dias
Sepse/Choque séptico60-120 mg/kg/dia8/8hIV10-14 dias
Neutropenia febril60 mg/kg/dia8/8hIVAté resolução
Infecções por ESBL60 mg/kg/dia8/8hIV10-14 dias
Infecções intra-abdominais60 mg/kg/dia8/8hIV7-14 dias
Pneumonia hospitalar60 mg/kg/dia8/8hIV10-14 dias

Infusão prolongada (3-4h): Considerar em infecções graves para otimizar T>CIM

5.2 Vancomicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções graves por MRSA60 mg/kg/dia (máx. 4g/dia)6/6hIVConforme indicação
Meningite60 mg/kg/dia6/6hIV14-21 dias
Bacteremia/Sepse60 mg/kg/dia6/6hIV14 dias (mínimo)
Endocardite60 mg/kg/dia6/6hIV4-6 semanas
Osteomielite60 mg/kg/dia6/6hIV4-6 semanas
Pneumonia MRSA60 mg/kg/dia6/6hIV10-14 dias
Colite por C. difficile40 mg/kg/dia (máx. 500mg/dia)6/6hVO10-14 dias

Monitorização obrigatória:

  • Nível vale: coletar antes da 4ª ou 5ª dose
  • Alvo tradicional: 15-20 μg/mL (infecções graves)
  • Alvo moderno: AUC 400-600 mg·h/L (preferível)

5.3 Teicoplanina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Dose de ataque (todos)10 mg/kg/dose12/12hIV3 doses
Manutenção:
Infecções moderadas6-10 mg/kg/dia24/24hIV/IMConforme indicação
Infecções graves (endocardite, osteo)10-12 mg/kg/dia24/24hIV4-6 semanas

Monitorização:

  • Nível vale após dose de ataque
  • Alvo: >10 μg/mL (>20 μg/mL para endocardite, osteomielite, meningite)

5.4 Linezolida

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Crianças <12 anos30 mg/kg/dia (máx. 1200mg/dia)8/8hIV ou VOConforme indicação
≥12 anos/Adolescentes600 mg/dose12/12hIV ou VOConforme indicação
Pneumonia MRSADose conforme idade8/8h ou 12/12hIV → VO10-14 dias
Infecções de pele MRSADose conforme idade8/8h ou 12/12hVO10-14 dias
Infecções por VREDose conforme idade8/8h ou 12/12hIV ou VO14-28 dias
Osteomielite (sequencial)Dose conforme idade8/8h ou 12/12hVOCompletar 4-6 semanas
TB multiresistenteDose conforme idade12/12hVOEm associação

Atenção: Uso prolongado (>2 semanas) requer monitorização hematológica

5.5 Daptomicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções de pele6-7 mg/kg/dose (máx. 500mg)24/24hIV7-14 dias
Bacteremia por MRSA10-12 mg/kg/dose (máx. 1000mg)24/24hIV≥14 dias
Endocardite direita10-12 mg/kg/dose24/24hIV4-6 semanas
Infecções por VRE8-12 mg/kg/dose24/24hIVConforme indicação
Osteomielite8-10 mg/kg/dose24/24hIV4-6 semanas

Contraindicação: Pneumonia (inativada pelo surfactante pulmonar) Monitorização: CPK semanal (suspender se >10x LSN ou sintomas musculares)

5.6 Ceftarolina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
2 meses a <2 anos24 mg/kg/dia8/8hIV5-14 dias
≥2 anos (≤33 kg)36 mg/kg/dia (máx. 400mg/dose)8/8hIV5-14 dias
≥2 anos (>33 kg)400-600 mg/dose8/8h ou 12/12hIV5-14 dias
Pneumonia comunitáriaDose conforme peso8/8h ou 12/12hIV5-7 dias
Infecções de pele MRSADose conforme peso8/8h ou 12/12hIV5-14 dias
Bacteremia MRSA600 mg 8/8h ou dose pediátrica8/8hIV≥14 dias

5.7 Ceftazidima-Avibactam

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
3 meses a <2 anos50/12,5 mg/kg (máx. 2g/0,5g)8/8hIV7-14 dias
≥2 anos50/12,5 mg/kg (máx. 2,5g/0,625g)8/8hIV7-14 dias
Infecções por KPCDose conforme idade8/8hIV10-14 dias
ITU complicadaDose conforme idade8/8hIV7-14 dias
Infecções intra-abdominaisDose conforme idade8/8hIV5-14 dias
Pneumonia hospitalarDose conforme idade8/8hIV7-14 dias

Infusão: 2 horas (otimiza farmacodinâmica)

5.8 Ajustes em Insuficiência Renal

FármacoClCr 30-50 mL/minClCr 10-30 mL/minClCr <10 mL/min
Meropenem100% dose50% dose50% dose, 24/24h
VancomicinaAjustar por nível séricoAjustar por nível séricoAjustar por nível sérico
Teicoplanina100% dose50% dose (a partir do 4º dia)33% dose (a partir do 4º dia)
LinezolidaSem ajusteSem ajusteSem ajuste*
Daptomicina100% dose100% dose, 48/48h100% dose, 48/48h
Ceftarolina400mg 12/12h300mg 12/12h200mg 12/12h
Ceftazidima-Avibactam1,25g 8/8h0,94g 12/12h0,94g 24/24h

*Linezolida: metabólitos acumulam em IR grave (significado clínico incerto)

5.9 Doses Neonatais

FármacoIdade/PesoDoseIntervalo
Meropenem<32 sem IG, ≤14 dias40 mg/kg/dia12/12h
<32 sem IG, >14 dias60 mg/kg/dia8/8h
≥32 sem IG, ≤7 dias40 mg/kg/dia12/12h
≥32 sem IG, >7 dias60 mg/kg/dia8/8h
Meningite120 mg/kg/dia8/8h
Vancomicina<29 sem IG10-15 mg/kg/dose18-24h
29-35 sem IG10-15 mg/kg/dose12h
≥36 sem IG, ≤7 dias10-15 mg/kg/dose12h
≥36 sem IG, >7 dias10-15 mg/kg/dose8h
Linezolida<7 dias10 mg/kg/dose12/12h
≥7 dias10 mg/kg/dose8/8h

6. Principais Efeitos Colaterais e Cuidados Clínicos

6.1 Reações Adversas por Fármaco

FármacoComuns (>1%)Graves/Raras
MeropenemDiarreia, náuseas, cefaleia, exantemaConvulsões (raro), colite por C. difficile
VancomicinaNefrotoxicidade, flebite, exantemaSíndrome do homem vermelho, ototoxicidade, neutropenia
TeicoplaninaExantema, febre, elevação de transaminasesOtotoxicidade, nefrotoxicidade (menor que vancomicina)
LinezolidaDiarreia, náuseas, cefaleiaMielossupressão (trombocitopenia, anemia), neuropatia periférica/óptica, acidose láctica
DaptomicinaDiarreia, reações no local de infusãoRabdomiólise/Miopatia (elevação de CPK), pneumonia eosinofílica
CeftarolinaDiarreia, náuseas, exantemaTeste de Coombs positivo, agranulocitose (rara)
Ceftazidima-AvibactamNáuseas, diarreia, cefaleiaTeste de Coombs positivo, colite por C. difficile

6.2 Alertas de Segurança Específicos

Síndrome do Homem Vermelho (Vancomicina):

  • Reação pseudoalérgica por liberação de histamina (não é alergia verdadeira)
  • Sintomas: eritema em face/pescoço/tronco, prurido, hipotensão
  • Prevenção: infusão lenta (mínimo 1h para cada 500mg)
  • Conduta se ocorrer: parar infusão, anti-histamínico, reiniciar lentamente

Nefrotoxicidade da Vancomicina:

  • Risco aumentado: níveis >20 μg/mL, uso prolongado, associação com aminoglicosídeos ou piperacilina-tazobactam
  • Monitorizar função renal a cada 2-3 dias
  • Ajustar dose conforme níveis séricos

Mielossupressão por Linezolida:

  • Trombocitopenia mais comum (10-15% em uso >2 semanas)
  • Anemia, leucopenia também possíveis
  • Mecanismo: inibição da síntese proteica mitocondrial
  • Conduta: hemograma semanal; considerar suspensão se plaquetas <100.000

Neuropatia por Linezolida:

  • Neuropatia periférica e óptica em uso prolongado (>28 dias)
  • Pode ser irreversível
  • Monitorizar sintomas visuais e sensitivos

Miopatia/Rabdomiólise por Daptomicina:

  • CPK pode elevar em 2-5% dos pacientes
  • Monitorizar CPK semanalmente
  • Suspender se CPK >10x LSN ou sintomas musculares (mialgia, fraqueza)
  • Evitar associação com estatinas

Daptomicina e Pneumonia:

  • NUNCA usar para pneumonia (inativada pelo surfactante pulmonar)
  • Pode haver piora clínica se usada inadvertidamente

6.3 Interações Medicamentosas

FármacoInteraçãoConduta
Meropenem + Ácido valproicoReduz níveis de valproato (até 90%)Evitar associação
Vancomicina + AminoglicosídeosNefrotoxicidade sinérgicaMonitorizar função renal
Vancomicina + Piperacilina-TazobactamRisco aumentado de IRAMonitorizar função renal
Linezolida + SerotoninaSíndrome serotoninérgicaEvitar ISRS, IMAO, tramadol
Linezolida + SimpatomiméticosCrise hipertensiva (efeito IMAO)Evitar associação
Daptomicina + EstatinasRisco de rabdomióliseSuspender estatina durante uso

6.4 Monitorização

FármacoMonitorização Obrigatória
MeropenemFunção renal, sinais de convulsão
VancomicinaNível sérico (vale), função renal, hemograma
TeicoplaninaNível sérico (vale), função renal, função hepática
LinezolidaHemograma semanal, sintomas visuais/neurológicos
DaptomicinaCPK semanal, sintomas musculares
CeftarolinaHemograma, teste de Coombs se hemólise
Ceftazidima-AvibactamFunção renal, hemograma

7. Conclusão

Os antimicrobianos abordados neste módulo representam recursos valiosos para o tratamento de infecções por bactérias multiresistentes. Seu uso deve ser criterioso, guiado por culturas e antibiograma sempre que possível, e alinhado aos princípios de stewardship antimicrobiano.

Pontos-chave para a prática clínica:

  1. Meropenem: Principal carbapenêmico em pediatria; reservar para infecções graves por produtores de ESBL/AmpC ou quando cobertura ampla é necessária; considerar infusão prolongada em infecções graves.

  2. Vancomicina: Pilar do tratamento de MRSA; monitorização de nível sérico obrigatória (AUC-guiada preferível); atenção à síndrome do homem vermelho e nefrotoxicidade.

  3. Teicoplanina: Alternativa à vancomicina com meia-vida longa e menor nefrotoxicidade; dose de ataque essencial; requer monitorização de nível vale.

  4. Linezolida: Única opção oral com atividade contra MRSA e VRE; excelente penetração tecidual; atenção à mielossupressão e neuropatia em uso prolongado.

  5. Daptomicina: Bactericida rápido contra gram-positivos resistentes; doses altas (10-12 mg/kg) em bacteremia; NUNCA usar para pneumonia; monitorizar CPK.

  6. Ceftarolina: Única cefalosporina ativa contra MRSA; útil em pneumonia comunitária grave com suspeita de MRSA; sem atividade contra Pseudomonas ou anaeróbios.

  7. Ceftazidima-Avibactam: Opção para Enterobactérias produtoras de KPC; não ativo contra metalo-beta-lactamases (NDM, VIM); reservar para infecções confirmadas por KPC.

O uso racional destes antimicrobianos, com indicação precisa, dosagem otimizada e duração adequada, é fundamental para maximizar eficácia terapêutica e minimizar a pressão seletiva que favorece a emergência de resistência.


8. Referências

  1. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Red Book: 2024-2027 Report of the Committee on Infectious Diseases. 33. ed. Itasca, IL: American Academy of Pediatrics, 2024. Disponível em: https://publications.aap.org/redbook

  2. GILBERT, D. N. et al. The Sanford Guide to Antimicrobial Therapy 2024. 54. ed. Sperryville, VA: Antimicrobial Therapy Inc., 2024.

  3. LIU, C. et al. Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America for the Treatment of Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus Infections in Adults and Children. Clinical Infectious Diseases, v. 52, n. 3, p. e18-e55, 2011. Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/52/3/e18/306145

  4. RYBAK, M. J. et al. Therapeutic Monitoring of Vancomycin for Serious Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus Infections: A Revised Consensus Guideline and Review. American Journal of Health-System Pharmacy, v. 77, n. 11, p. 835-864, 2020. Disponível em: https://academic.oup.com/ajhp/article/77/11/835/5810200

  5. TAMMA, P. D. et al. Infectious Diseases Society of America Guidance on the Treatment of Antimicrobial-Resistant Gram-Negative Infections. Clinical Infectious Diseases, v. 75, n. 2, p. e364-e413, 2022. Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/75/2/e364/6585428

  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Infectologia. Antimicrobianos na Prática Clínica Pediátrica: Guia Prático. 4. ed. Rio de Janeiro: SBP, 2022. Disponível em: https://www.sbp.com.br/publicacoes/

  7. PATEL, S. J.; SAIMAN, L. Principles of Antimicrobial Therapy. In: LONG, S. S.; PROBER, C. G.; FISCHER, M. (Eds.). Principles and Practice of Pediatric Infectious Diseases. 6. ed. Philadelphia: Elsevier, 2023. p. 1274-1285.

  8. EUROPEAN COMMITTEE ON ANTIMICROBIAL SUSCEPTIBILITY TESTING (EUCAST). Breakpoint tables for interpretation of MICs and zone diameters. Version 14.0, 2024. Disponível em: https://www.eucast.org/clinical_breakpoints


Última atualização: Dezembro 2025