Módulo 3

Oxacilina, Macrolídeos, Clindamicina e Rifampicina

Arsenal contra estafilococos, atípicos e infecções complexas

OxacilinaPiperacilina-TazobactamAzitromicinaClaritromicinaClindamicinaGentamicinaRifampicina
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Staphylococcus aureus - caricatura ilustrada de bactéria sofisticada com cartola e monóculo

1. Introdução

Este módulo aborda sete antimicrobianos de classes distintas, mas frequentemente utilizados na prática pediátrica hospitalar: oxacilina (penicilina antiestafilocócica), piperacilina-tazobactam (penicilina de amplo espectro com inibidor de beta-lactamase), azitromicina e claritromicina (macrolídeos), clindamicina (lincosamida), gentamicina (aminoglicosídeo) e rifampicina (rifamicina).

Embora pertençam a classes farmacológicas diferentes, esses antimicrobianos compartilham importância clínica em situações específicas da pediatria: infecções estafilocócicas graves (oxacilina, clindamicina), infecções polimicrobianas e hospitalares (piperacilina-tazobactam), infecções respiratórias por patógenos atípicos (azitromicina, claritromicina), sinergia em infecções graves e sepse neonatal (gentamicina), e como adjuvante em infecções por micobactérias e biofilmes (rifampicina).

A compreensão das particularidades de cada fármaco permite ao residente selecionar o antimicrobiano mais adequado para cada situação clínica, otimizando eficácia e minimizando riscos.


2. Breve Histórico

Oxacilina

As penicilinas resistentes às penicilinases (isoxazolilpenicilinas) foram desenvolvidas na década de 1960 para combater a crescente resistência do Staphylococcus aureus às penicilinas naturais. A meticilina foi a primeira (1959), seguida pela oxacilina e outras. A oxacilina tornou-se a representante desta classe no Brasil, sendo utilizada desde os anos 1970.

Piperacilina-Tazobactam

A piperacilina, ureidopenicilina de amplo espectro, foi desenvolvida nos anos 1970. A associação com o tazobactam (inibidor de beta-lactamase) foi introduzida em 1993, ampliando significativamente sua utilidade clínica contra bactérias produtoras de beta-lactamases.

Azitromicina e Claritromicina

Os macrolídeos têm origem na eritromicina, isolada de Streptomyces erythreus em 1952. A claritromicina, desenvolvida na década de 1980, foi o primeiro macrolídeo de segunda geração, oferecendo melhor estabilidade ácida e menor incidência de efeitos gastrointestinais que a eritromicina. A azitromicina, desenvolvida pouco depois, representa um avanço adicional: meia-vida muito prolongada (permitindo cursos de 3-5 dias), melhor tolerabilidade gastrointestinal e excelente penetração tecidual. Ambas são alternativas à eritromicina, com a claritromicina sendo preferida quando se deseja posologia de 12/12h e a azitromicina quando se busca cursos mais curtos com dose única diária.

Clindamicina

Derivada da lincomicina (isolada de Streptomyces lincolnensis em 1962), a clindamicina foi introduzida em 1968, oferecendo melhor absorção oral e maior potência antimicrobiana.

Gentamicina

A gentamicina foi isolada de Micromonospora purpurea em 1963 por Weinstein e colaboradores. Foi o primeiro aminoglicosídeo de amplo espectro contra gram-negativos resistentes. Introduzida clinicamente em 1969, tornou-se fundamental no tratamento de infecções graves por bacilos gram-negativos e na sinergia com beta-lactâmicos para infecções por cocos gram-positivos (endocardite enterocócica e estafilocócica em prótese).

Rifampicina

Isolada de Amycolatopsis rifamycinica em 1957, a rifampicina foi introduzida clinicamente em 1968. Revolucionou o tratamento da tuberculose e permanece fundamental no manejo de infecções micobacterianas e estafilocócicas com biofilme.


3. Características Farmacológicas de Relevância Clínica

3.1 Mecanismos de Ação

AntimicrobianoMecanismo de AçãoEfeito
OxacilinaInibe síntese da parede celular (ligação às PBPs)Bactericida
Piperacilina-TazobactamPiperacilina: inibe PBPs; Tazobactam: inibe beta-lactamasesBactericida
AzitromicinaInibe síntese proteica (ligação à subunidade 50S ribossomal)Bacteriostático*
ClaritromicinaInibe síntese proteica (ligação à subunidade 50S ribossomal)Bacteriostático*
ClindamicinaInibe síntese proteica (ligação à subunidade 50S ribossomal)Bacteriostático*
GentamicinaInibe síntese proteica (ligação irreversível à subunidade 30S ribossomal)Bactericida
RifampicinaInibe RNA polimerase DNA-dependenteBactericida

*Azitromicina, claritromicina e clindamicina podem ser bactericidas em concentrações elevadas ou contra patógenos específicos.

3.2 Farmacodinâmica

AntimicrobianoParâmetro farmacocinética/dinâmicaImplicação Clínica
OxacilinaTempo-dependente (T>CIM)Fracionamento de doses importante
Piperacilina-TazobactamTempo-dependente (T>CIM)Infusão prolongada pode otimizar eficácia
AzitromicinaConcentração-dependente + tempoDose única diária eficaz; acúmulo tecidual
ClaritromicinaConcentração-dependente + AUC/CIMDose 12/12h; menor acúmulo tecidual que azitromicina
ClindamicinaTempo-dependente + EPA*Doses fracionadas; efeito pós-antibiótico permite intervalos maiores
GentamicinaConcentração-dependente (Cmax/CIM) + EPA prolongadoDose única diária (ou estendida) otimiza eficácia e reduz toxicidade
RifampicinaConcentração-dependente (Cmax/CIM)Dose única diária preferível

*EPA: Efeito pós-antibiótico

3.3 Farmacocinética Comparativa

ParâmetroOxacilinaPiperacilina-TazobactamAzitromicinaClaritromicinaClindamicinaGentamicinaRifampicina
ViaIVIVVO, IVVOVO, IVIV, IMVO, IV
Biodisponibilidade oral--37%50-55%90%->90%
Meia-vida sérica0,5-1 h1 h40-68 h3-7 h2-4 h2-3 h2-5 h
Meia-vida tecidual--Dias (acúmulo)Horas---
Ligação proteica94%30%7-50%65-75%90%<10%80%
Penetração no LCRBaixaBaixaBaixaBaixaBaixaBaixa*Excelente
MetabolismoHepático (parcial)MínimoHepáticoHepático (CYP3A4)HepáticoMínimoHepático (CYP450)
Excreção principalRenalRenalBiliar/FecalRenal (20-40%) + BiliarBiliar/RenalRenalBiliar

*Gentamicina: penetração no LCR baixa mesmo com meninges inflamadas; pode requerer administração intratecal em meningite.

Destaques Farmacocinéticos

Azitromicina:

  • Concentrações teciduais 10-100x maiores que séricas
  • Acúmulo em macrófagos e neutrófilos (liberação no sítio de infecção)
  • Meia-vida tecidual permite cursos curtos (3-5 dias)

Claritromicina:

  • Meia-vida mais curta que azitromicina, exigindo posologia 12/12h
  • Metabólito ativo (14-OH-claritromicina) com atividade antimicrobiana sinérgica
  • Melhor estabilidade em meio ácido que eritromicina
  • Inibidor do CYP3A4: atenção a interações medicamentosas (menor que rifampicina)

Rifampicina:

  • Potente indutor enzimático (CYP450): múltiplas interações medicamentosas
  • Excelente penetração em todos os tecidos, incluindo SNC e abscessos
  • Coloração alaranjada de fluidos corporais (urina, lágrimas, suor)

Clindamicina:

  • Excelente penetração óssea (útil em osteomielite)
  • Boa concentração em abscessos
  • Inibe produção de toxinas estafilocócicas e estreptocócicas

Gentamicina:

  • Efeito pós-antibiótico prolongado (permite dose única diária)
  • Acúmulo no córtex renal e ouvido interno (toxicidade)
  • Atividade bactericida rápida, concentração-dependente
  • Sinergia com beta-lactâmicos contra gram-positivos (penetração facilitada na parede)
  • Inativada em ambiente anaeróbio (não usar para anaeróbios)

4. Principais Usos Clínicos e Bactérias Sensíveis/Resistentes

4.1 Espectro de Cobertura

Oxacilina

Bactérias sensíveis:

  • Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA) - PRIMEIRA ESCOLHA
  • Staphylococcus coagulase-negativos sensíveis
  • Streptococcus pyogenes
  • Streptococcus pneumoniae

Bactérias resistentes:

  • Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA)
  • Enterococcus spp.
  • Gram-negativos
  • Anaeróbios

Piperacilina-Tazobactam

Bactérias sensíveis:

  • Staphylococcus aureus MSSA
  • Streptococcus spp.
  • Enterococcus faecalis
  • Enterobactérias (incluindo produtoras de beta-lactamase)
  • Pseudomonas aeruginosa
  • Haemophilus influenzae
  • Anaeróbios (incluindo Bacteroides fragilis)

Bactérias resistentes:

  • MRSA
  • Enterococcus faecium
  • Enterobactérias produtoras de ESBL ou AmpC
  • Stenotrophomonas maltophilia

Azitromicina

Bactérias sensíveis:

  • Streptococcus pneumoniae (apenas cepas sensíveis)
  • Streptococcus pyogenes
  • Haemophilus influenzae
  • Moraxella catarrhalis
  • Patógenos atípicos: Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia spp., Legionella
  • Bordetella pertussis
  • Bartonella henselae
  • Micobactérias não tuberculosas (M. avium)

Bactérias resistentes:

  • S. pneumoniae: 20-30% de resistência no Brasil
  • MRSA
  • Enterobactérias
  • Pseudomonas

Claritromicina

Bactérias sensíveis:

  • Streptococcus pneumoniae (apenas cepas sensíveis)
  • Streptococcus pyogenes
  • Haemophilus influenzae
  • Moraxella catarrhalis
  • Patógenos atípicos: Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia spp., Legionella
  • Bordetella pertussis
  • Helicobacter pylori (em esquemas de erradicação)
  • Micobactérias não tuberculosas (M. avium, M. kansasii)

Bactérias resistentes:

  • S. pneumoniae: resistência cruzada com azitromicina (~20-30% no Brasil)
  • MRSA
  • Enterobactérias
  • Pseudomonas

Comparação com azitromicina:

  • Espectro similar, mas claritromicina tem atividade superior contra H. pylori
  • Resistência cruzada entre macrolídeos (gene erm)
  • Azitromicina preferida quando se deseja cursos mais curtos

Clindamicina

Bactérias sensíveis:

  • Staphylococcus aureus MSSA e CA-MRSA (maioria)
  • Streptococcus pyogenes
  • Streptococcus pneumoniae
  • Anaeróbios acima do diafragma (Peptostreptococcus, Prevotella)
  • Propionibacterium acnes
  • Toxoplasma gondii (em associação)

Bactérias resistentes:

  • HA-MRSA (frequentemente resistente)
  • Enterococcus spp.
  • Bacteroides fragilis (resistência crescente: 20-40%)
  • Gram-negativos aeróbios

Fenômeno de resistência induzível (teste D):

  • Cepas com gene erm podem desenvolver resistência durante tratamento
  • Teste D positivo: clindamicina deve ser evitada

Gentamicina

Bactérias sensíveis:

  • Enterobactérias (E. coli, Klebsiella, Enterobacter, Proteus, Serratia)
  • Pseudomonas aeruginosa
  • Staphylococcus aureus (MSSA e MRSA - em sinergia)
  • Staphylococcus coagulase-negativos (em sinergia)
  • Enterococcus spp. (em sinergia com ampicilina/vancomicina)
  • Listeria monocytogenes (em sinergia com ampicilina)

Bactérias resistentes:

  • Streptococcus spp. (atividade intrínseca limitada)
  • Anaeróbios (inativação em ambiente anóxico)
  • Stenotrophomonas maltophilia
  • Patógenos atípicos (Mycoplasma, Chlamydia, Legionella)

Uso obrigatório em associação:

  • Monoterapia raramente indicada
  • Sinergia com beta-lactâmicos é o principal uso clínico
  • Resistência por enzimas modificadoras de aminoglicosídeos (AMEs)

Rifampicina

Bactérias sensíveis:

  • Mycobacterium tuberculosis
  • Mycobacterium leprae
  • Micobactérias não tuberculosas
  • Staphylococcus aureus (MSSA e MRSA)
  • Staphylococcus coagulase-negativos
  • Streptococcus spp.
  • Neisseria meningitidis (profilaxia)
  • Haemophilus influenzae tipo b (profilaxia)
  • Legionella
  • Brucella

Uso obrigatório em associação:

  • Monoterapia seleciona rapidamente mutantes resistentes
  • Sempre usar com outro antimicrobiano ativo (exceto profilaxia curta)

4.2 Indicações Principais em Pediatria

IndicaçãoAntimicrobiano de EscolhaAlternativa/Associação
Infecções estafilocócicas MSSA gravesOxacilinaCefazolina
Celulite/Abscesso (suspeita CA-MRSA)ClindamicinaSulfametoxazol-Trimetoprim
Síndrome do choque tóxico estreptocócicoPenicilina + Clindamicina-
Fasciíte necrotizantePiperacilina-Tazobactam + ClindamicinaMeropenem + Clindamicina
Sepse hospitalar/Neutropenia febrilPiperacilina-TazobactamCefepima
Pneumonia atípicaAzitromicinaClaritromicina
CoquelucheAzitromicinaClaritromicina
Osteomielite MSSAOxacilina → Clindamicina (VO)Cefazolina → Cefalexina
Sepse neonatal (empírico)Ampicilina + GentamicinaAmpicilina + Cefotaxima
Endocardite enterocócicaAmpicilina + GentamicinaVancomicina + Gentamicina
Endocardite MSSA (prótese)Oxacilina + Rifampicina + Gentamicina-
Pielonefrite graveCeftriaxona ± GentamicinaGentamicina (monoterapia curta)
Infecções com biofilme (cateter, prótese)ATB base + Rifampicina-
Profilaxia meningocócicaRifampicinaCeftriaxona
Profilaxia H. influenzae tipo bRifampicina-
TuberculoseRifampicina (esquema RHZE)-

4.3 Padrões de Resistência Relevantes

MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina):

  • Resistência mediada pelo gene mecA (PBP2a alterada)
  • Resistente a TODOS os beta-lactâmicos (incluindo oxacilina e cefalosporinas)
  • CA-MRSA: frequentemente sensível a clindamicina, sulfametoxazol-trimetoprim
  • HA-MRSA: frequentemente multirresistente

Resistência à clindamicina:

  • Pode ser constitutiva ou induzível (gene erm)
  • Teste D obrigatório quando eritromicina-R e clindamicina-S
  • Resistência cruzada com macrolídeos

Resistência à rifampicina:

  • Mutações na RNA polimerase (gene rpoB)
  • Emerge rapidamente em monoterapia
  • Nunca usar como agente único em tratamento (exceto profilaxias curtas)

5. Principais Regimes Terapêuticos

5.1 Oxacilina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções de pele/partes moles graves150-200 mg/kg/dia (máx. 12g/dia)4/4h ou 6/6hIV7-14 dias
Pneumonia estafilocócica150-200 mg/kg/dia4/4h ou 6/6hIV14-21 dias
Osteomielite/Artrite séptica150-200 mg/kg/dia4/4h ou 6/6hIV4-6 semanas
Endocardite200 mg/kg/dia4/4h ou 6/6hIV6 semanas
Sepse estafilocócica200 mg/kg/dia4/4hIV14-21 dias
Meningite (se sensível)200 mg/kg/dia4/4hIV14-21 dias

5.2 Piperacilina-Tazobactam

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções graves300-400 mg/kg/dia (componente piperacilina, máx. 16g/dia)6/6h ou 8/8hIVConforme indicação
Sepse/Choque séptico400 mg/kg/dia6/6hIV10-14 dias
Pneumonia hospitalar300-400 mg/kg/dia6/6h ou 8/8hIV10-14 dias
Infecções intra-abdominais300-400 mg/kg/dia6/6h ou 8/8hIV7-14 dias
Neutropenia febril300-400 mg/kg/dia6/6h ou 8/8hIVAté resolução
Infecções por Pseudomonas400 mg/kg/dia6/6hIV10-14 dias

Infusão prolongada (3-4h): Pode otimizar T>CIM em infecções graves

5.3 Azitromicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Faringoamigdalite (alternativa)12 mg/kg/dia (máx. 500mg)24/24hVO5 dias
OMA (alternativa)10 mg/kg D1, depois 5 mg/kg24/24hVO5 dias
Pneumonia atípica10 mg/kg D1 (máx. 500mg), depois 5 mg/kg24/24hVO5 dias
Pneumonia comunitária (hospitalar)10 mg/kg/dia (máx. 500mg)24/24hIV5-7 dias
Coqueluche<6 meses: 10 mg/kg/dia24/24hVO5 dias
≥6 meses: 10 mg/kg D1, depois 5 mg/kg24/24hVO5 dias
Profilaxia coqueluche (contactantes)Mesmo esquema terapêutico24/24hVO5 dias
Doença da arranhadura do gato (grave)10 mg/kg D1, depois 5 mg/kg24/24hVO5 dias
Infecção por M. avium (profilaxia)5 mg/kg (máx. 250mg)24/24hVOContínuo
Infecção por M. avium (tratamento)10-12 mg/kg (máx. 500mg)24/24hVOEm associação

5.4 Claritromicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Faringoamigdalite (alternativa)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO10 dias
OMA (alternativa)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO10 dias
Pneumonia atípica15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO7-10 dias
Pneumonia comunitária (alternativa)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO7-10 dias
Coqueluche15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO7 dias
Profilaxia coqueluche (contactantes)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO7 dias
Infecção por H. pylori (esquema tríplice)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVO14 dias
Infecção por M. avium (tratamento)15 mg/kg/dia (máx. 500mg/dose)12/12hVOEm associação

Comparação com azitromicina:

  • Claritromicina exige 12/12h vs. dose única diária da azitromicina
  • Azitromicina preferida em coqueluche (<6 meses) e quando adesão é preocupação
  • Claritromicina preferida em esquemas de erradicação de H. pylori

5.5 Clindamicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Infecções de pele (CA-MRSA)30-40 mg/kg/dia (máx. 1,8g/dia)8/8hVO7-10 dias
Infecções graves (partes moles)25-40 mg/kg/dia (máx. 2,7g/dia)6/6h ou 8/8hIV10-14 dias
Osteomielite (sequencial)30-40 mg/kg/dia8/8hVOCompletar 4-6 semanas
Síndrome do choque tóxico40 mg/kg/dia6/6h ou 8/8hIV10-14 dias
Fasciíte necrotizante40 mg/kg/dia6/6h ou 8/8hIVAssociar a beta-lactâmico
Toxoplasmose (em associação)20-30 mg/kg/dia6/6hIV/VO4-6 semanas
Pneumocistose (alternativa)30-40 mg/kg/dia6/6hIV21 dias
Malária grave (em associação)20 mg/kg/dia8/8hIV/VO7 dias

Importância na inibição de toxinas:

  • Inibe síntese de toxinas bacterianas (TSS, fasciíte)
  • Associar a beta-lactâmico em infecções graves por Streptococcus/Staphylococcus

5.6 Gentamicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Sinergia (endocardite, sepse grave)3 mg/kg/dia8/8hIVConforme patógeno
Infecções graves por Gram-negativos5-7,5 mg/kg/dia24/24h (dose única diária)IV7-14 dias
Sepse neonatal (com ampicilina)Ver tabela neonatalConforme IG/idadeIV7-14 dias
Pielonefrite grave5-7,5 mg/kg/dia24/24hIV7-10 dias
Endocardite enterocócica3 mg/kg/dia8/8hIV4-6 semanas
Endocardite MSSA (prótese)3 mg/kg/dia8/8hIV2 semanas (após início)

Dose única diária (extended-interval dosing):

  • Preferida para infecções por gram-negativos
  • Otimiza pico sérico (Cmax/CIM) e reduz toxicidade
  • Contraindicada em: endocardite, gestantes, grandes queimados, ascite volumosa

Monitorização obrigatória:

  • Vale (pré-dose): <2 μg/mL (evitar acúmulo/toxicidade)
  • Pico (30min pós-infusão): 5-10 μg/mL (dose fracionada) ou 15-25 μg/mL (dose única diária)
  • Função renal antes e durante tratamento

5.7 Rifampicina

IndicaçãoDoseIntervaloViaDuração
Profilaxias
Meningite meningocócica (contactantes)10 mg/kg/dose (máx. 600mg)12/12hVO2 dias
Meningite por H. influenzae b20 mg/kg/dia (máx. 600mg)24/24hVO4 dias
Tuberculose (esquema RHZE)
<10 anos15 mg/kg/dia (máx. 600mg)24/24hVO6 meses
≥10 anos10 mg/kg/dia (máx. 600mg)24/24hVO6 meses
Infecções estafilocócicas
Endocardite (prótese) - adjuvante20 mg/kg/dia (máx. 900mg)8/8hVO6 semanas
Osteomielite crônica - adjuvante10-20 mg/kg/dia (máx. 600mg)12/12h ou 24/24hVOSemanas-meses
Infecções com biofilme - adjuvante10-20 mg/kg/dia12/12hVOConforme indicação

Regra de ouro: NUNCA usar rifampicina como monoterapia (exceto profilaxia de contatos)

5.8 Ajustes em Situações Especiais

Insuficiência Renal

FármacoClCr 30-50 mL/minClCr 10-30 mL/minClCr <10 mL/min
OxacilinaSem ajusteSem ajusteSem ajuste
Piperacilina-Tazobactam3,375g 6/6h2,25g 6/6h2,25g 8/8h
AzitromicinaSem ajusteSem ajusteSem ajuste
ClaritromicinaSem ajusteReduzir 50%Reduzir 50%
ClindamicinaSem ajusteSem ajusteSem ajuste
GentamicinaAjustar por nível séricoAjustar por nível séricoAjustar por nível sérico**
RifampicinaSem ajusteSem ajusteSem ajuste*

*Evitar em insuficiência renal grave + insuficiência hepática **Gentamicina é nefrotóxica; monitorização rigorosa obrigatória; considerar alternativas se possível

Insuficiência Hepática

FármacoConduta
OxacilinaCautela em hepatopatia grave
Piperacilina-TazobactamSem ajuste específico
AzitromicinaEvitar em hepatopatia grave
ClaritromicinaCautela; monitorar função hepática
ClindamicinaReduzir dose em hepatopatia grave
GentamicinaSem ajuste específico (excreção renal)
RifampicinaContraindicada em hepatopatia ativa; monitorar função hepática

Neonatos

FármacoIdadeDoseIntervalo
Oxacilina≤7 dias50-75 mg/kg/dia12/12h
>7 dias100-150 mg/kg/dia8/8h ou 6/6h
Piperacilina-Tazobactam<36 sem IG150-225 mg/kg/dia8/8h ou 12/12h
≥36 sem IG225-300 mg/kg/dia8/8h
Clindamicina≤7 dias10-15 mg/kg/dia8/8h ou 12/12h
>7 dias15-20 mg/kg/dia6/6h ou 8/8h
Gentamicina≤29 sem IG, 0-7 dias5 mg/kg/dose48/48h
≤29 sem IG, 8-28 dias4 mg/kg/dose36/36h
30-34 sem IG, 0-7 dias4,5 mg/kg/dose36/36h
30-34 sem IG, ≥8 dias4 mg/kg/dose24/24h
≥35 sem IG, qualquer idade4 mg/kg/dose24/24h
AzitromicinaCoqueluche10 mg/kg/dia24/24h por 5 dias

6. Principais Efeitos Colaterais e Cuidados Clínicos

6.1 Reações Adversas por Fármaco

FármacoComuns (>1%)Graves/Raras
OxacilinaFlebite, exantema, febre medicamentosaNefrite intersticial, hepatite, neutropenia
Piperacilina-TazobactamDiarreia, exantema, eosinofiliaNeutropenia, convulsões, colite por C. difficile
AzitromicinaDiarreia, náuseas, dor abdominalProlongamento QT, hepatotoxicidade, colestase
ClaritromicinaDiarreia, náuseas, disgeusia (gosto metálico), cefaleiaProlongamento QT, hepatotoxicidade, reações cutâneas graves
ClindamicinaDiarreia (10-20%), exantema, elevação de transaminasesColite por C. difficile (risco elevado), reações cutâneas graves
GentamicinaNefrotoxicidade (geralmente reversível), elevação de creatininaOtotoxicidade (coclear e vestibular, pode ser irreversível), bloqueio neuromuscular
RifampicinaColoração alaranjada de fluidos, náuseas, hepatotoxicidadeSíndrome gripal (uso intermitente), trombocitopenia, insuficiência renal aguda

6.2 Alertas de Segurança Específicos

Clindamicina e Clostridioides difficile:

  • Risco de colite pseudomembranosa maior que outros antimicrobianos
  • Pode ocorrer até 2 meses após término do tratamento
  • Sintomas: diarreia aquosa, febre, dor abdominal, leucocitose
  • Conduta: suspender clindamicina, pesquisar toxina, tratar se confirmado

Azitromicina e cardiotoxicidade:

  • Prolonga intervalo QT
  • Risco aumentado em: cardiopatia prévia, uso de outros fármacos que prolongam QT, distúrbios eletrolíticos
  • Avaliar ECG em pacientes de risco

Claritromicina - interações e cardiotoxicidade:

  • Também prolonga intervalo QT (risco similar à azitromicina)
  • Inibidor do CYP3A4: pode elevar níveis de diversos fármacos
  • Interações importantes: midazolam, estatinas, carbamazepina, colchicina
  • Disgeusia (alteração do paladar) é frequente e pode afetar adesão

Gentamicina - nefrotoxicidade e ototoxicidade:

  • Nefrotoxicidade: acúmulo no córtex renal; geralmente reversível com suspensão
  • Fatores de risco: uso prolongado (>7-10 dias), doses elevadas, desidratação, uso concomitante de outros nefrotóxicos (vancomicina, anfotericina, AINEs, contraste iodado)
  • Ototoxicidade: dano coclear (perda auditiva) e/ou vestibular (vertigem, ataxia)
  • Pode ser irreversível e ocorrer mesmo com níveis séricos adequados
  • Risco aumentado: uso prolongado, insuficiência renal, uso prévio de aminoglicosídeos
  • Bloqueio neuromuscular: raro, mas potencializado por bloqueadores neuromusculares, miastenia gravis, botulismo

Gentamicina - monitorização obrigatória:

  • Dosar nível sérico antes da 3ª ou 4ª dose (steady-state)
  • Vale: <2 μg/mL (para evitar acúmulo e toxicidade)
  • Pico: 5-10 μg/mL (dose fracionada) ou 15-25 μg/mL (dose única diária)
  • Creatinina e ureia: antes do início e a cada 2-3 dias

Rifampicina - hepatotoxicidade:

  • Monitorar função hepática (especialmente nas primeiras 8 semanas)
  • Risco aumentado: hepatopatia prévia, uso de álcool, outros hepatotóxicos
  • Suspender se TGO/TGP >5x LSN ou se sintomas

Rifampicina - síndrome gripal:

  • Ocorre com uso intermitente (>2 doses/semana) ou reinício após interrupção
  • Sintomas: febre, calafrios, mialgias, cefaleia
  • Prevenção: manter uso diário contínuo

6.3 Interações Medicamentosas

Rifampicina - ATENÇÃO ESPECIAL:

A rifampicina é potente indutor do citocromo P450 e reduz significativamente os níveis séricos de múltiplos fármacos:

Fármaco AfetadoEfeitoConduta
Contraceptivos oraisFalha contraceptivaMétodo adicional obrigatório
CorticosteroidesRedução do efeitoAumentar dose do corticoide
AnticonvulsivantesRedução dos níveisMonitorar níveis séricos
VarfarinaRedução do efeitoMonitorar INR frequentemente
AntirretroviraisRedução dos níveisAjustes complexos; consultar especialista
Ciclosporina/TacrolimusRedução dos níveisMonitorar e ajustar doses
Antifúngicos azólicosRedução dos níveisEvitar associação se possível
MetadonaSíndrome de abstinênciaAjustar dose

Outras interações relevantes:

AssociaçãoInteraçãoConduta
Clindamicina + Bloqueadores neuromuscularesPotencialização do bloqueioCautela em anestesia
Gentamicina + VancomicinaNefrotoxicidade aditivaMonitorar função renal de perto
Gentamicina + Anfotericina BNefrotoxicidade aditivaEvitar se possível; hidratar
Gentamicina + Diuréticos de alçaOtotoxicidade aumentadaEvitar furosemida concomitante
Gentamicina + Bloqueadores neuromuscularesPotencialização do bloqueioCautela em anestesia
Azitromicina + Fármacos que prolongam QTRisco de arritmiaEvitar associação
Claritromicina + Fármacos que prolongam QTRisco de arritmiaEvitar associação
Claritromicina + EstatinasRabdomióliseEvitar ou suspender estatina
Claritromicina + ColchicinaToxicidade por colchicinaContraindicado em IR/IH
Piperacilina-Tazobactam + VancomicinaNefrotoxicidade aumentadaMonitorar função renal

6.4 Monitorização

FármacoMonitorização Recomendada
OxacilinaFunção renal, função hepática, hemograma (uso prolongado)
Piperacilina-TazobactamFunção renal, hemograma, sinais de sangramento
AzitromicinaECG em pacientes de risco cardíaco; função hepática se uso prolongado
ClaritromicinaECG em pacientes de risco cardíaco; função hepática; função renal (ajustar se ClCr <30)
ClindamicinaSintomas gastrointestinais (diarreia); função hepática
GentamicinaNíveis séricos (vale e pico); função renal (creatinina a cada 2-3 dias); audiometria se uso prolongado
RifampicinaFunção hepática (basal, 2-4 sem, depois mensal); hemograma; função renal

7. Conclusão

Este módulo abordou sete antimicrobianos de classes distintas, cada um com papel específico no arsenal terapêutico pediátrico:

Pontos-chave para a prática clínica:

  1. Oxacilina: Permanece como primeira escolha para infecções graves por MSSA; dose alta (200 mg/kg/dia) e intervalo curto (4/4h ou 6/6h) são essenciais para otimizar eficácia.

  2. Piperacilina-Tazobactam: Antimicrobiano de amplo espectro para infecções hospitalares graves e polimicrobianas; cobre Pseudomonas e anaeróbios; considerar infusão prolongada em infecções graves.

  3. Azitromicina: Primeira escolha para pneumonia atípica e coqueluche; cursos curtos (5 dias) são eficazes devido ao acúmulo tecidual; atenção ao risco de prolongamento do QT.

  4. Claritromicina: Alternativa à azitromicina para pneumonia atípica e coqueluche; posologia 12/12h (vs. dose única diária); preferida em esquemas de erradicação de H. pylori; atenção às interações via CYP3A4.

  5. Clindamicina: Excelente opção para infecções de pele por CA-MRSA e como adjuvante em síndrome do choque tóxico (inibe toxinas); risco significativo de colite por C. difficile.

  6. Gentamicina: Fundamental na sinergia com beta-lactâmicos (endocardite, sepse neonatal); dose única diária preferida para gram-negativos; monitorização de níveis séricos e função renal obrigatória; atenção à nefro e ototoxicidade.

  7. Rifampicina: Sempre usar em associação (exceto profilaxias curtas); potente indutor enzimático com múltiplas interações; fundamental em TB, infecções com biofilme e profilaxia de meningite.

  8. Teste D: Obrigatório para clindamicina quando eritromicina-R e clindamicina-S (detecta resistência induzível).

O uso racional destes antimicrobianos, respeitando suas indicações específicas e limitações, contribui para melhores desfechos clínicos e preservação da eficácia antimicrobiana.


8. Referências

  1. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Red Book: 2024-2027 Report of the Committee on Infectious Diseases. 33. ed. Itasca, IL: American Academy of Pediatrics, 2024. Disponível em: https://publications.aap.org/redbook

  2. GILBERT, D. N. et al. The Sanford Guide to Antimicrobial Therapy 2024. 54. ed. Sperryville, VA: Antimicrobial Therapy Inc., 2024.

  3. LIU, C. et al. Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America for the Treatment of Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus Infections in Adults and Children. Clinical Infectious Diseases, v. 52, n. 3, p. e18-e55, 2011. Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/52/3/e18/306145

  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Infectologia. Antimicrobianos na Prática Clínica Pediátrica: Guia Prático. 4. ed. Rio de Janeiro: SBP, 2022. Disponível em: https://www.sbp.com.br/publicacoes/

  5. STEVENS, D. L. et al. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections: 2014 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, v. 59, n. 2, p. e10-e52, 2014. Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/59/2/e10/2895845

  6. NAHATA, M. C.; TAKETOMO, C. K. Pediatric Drug Dosages. In: KIMBERLIN, D. W. et al. (Eds.). Red Book: 2024-2027 Report of the Committee on Infectious Diseases. 33. ed. Itasca, IL: American Academy of Pediatrics, 2024.

  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO consolidated guidelines on tuberculosis: Module 4: Treatment - Drug-susceptible tuberculosis treatment. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240048126

  8. TAMMA, P. D. et al. Infectious Diseases Society of America Guidance on the Treatment of Antimicrobial-Resistant Gram-Negative Infections. Clinical Infectious Diseases, v. 75, n. 2, p. e364-e413, 2022. Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/75/2/e364/6585428


Última atualização: Dezembro 2025