Cefalosporinas
Das gerações à prática: espectro progressivo e indicações estratégicas
1. Introdução
As cefalosporinas constituem uma das classes de antibióticos mais utilizadas na prática pediátrica, tanto em ambiente ambulatorial quanto hospitalar. Derivadas do fungo Cephalosporium acremonium, compartilham com as penicilinas o núcleo beta-lactâmico, porém apresentam maior estabilidade frente a diversas beta-lactamases e espectro de ação progressivamente mais amplo conforme as gerações.
Este módulo aborda as cefalosporinas de 1ª a 4ª geração disponíveis e utilizadas na rotina do Hospital Regional de Taguatinga: cefalexina e cefazolina (1ª geração), cefuroxima (2ª geração), ceftriaxona, cefotaxima e ceftazidima (3ª geração), e cefepima (4ª geração). A compreensão das diferenças entre as gerações quanto ao espectro antimicrobiano, farmacocinética e indicações clínicas é fundamental para a seleção racional destes antimicrobianos.
2. Breve Histórico
A história das cefalosporinas teve início em 1945, quando o médico italiano Giuseppe Brotzu isolou o fungo Cephalosporium acremonium de águas residuais próximas a um esgoto na Sardenha. Brotzu observou que extratos do fungo inibiam o crescimento de diversas bactérias, incluindo Salmonella typhi.
Em 1948, Brotzu enviou amostras do fungo para Howard Florey em Oxford, onde Edward Abraham e Guy Newton isolaram a cefalosporina C em 1955. A partir dessa molécula, foram desenvolvidas as cefalosporinas semissintéticas. A cefalotina, primeira cefalosporina de uso clínico, foi introduzida em 1964. A cefalexina (1967) foi a primeira cefalosporina oral eficaz.
As gerações subsequentes surgiram nas décadas seguintes: 2ª geração nos anos 1970, 3ª geração nos anos 1980 (incluindo a ceftriaxona em 1982), e 4ª geração nos anos 1990. Cada nova geração trouxe modificações químicas que ampliaram o espectro contra gram-negativos, porém frequentemente às custas de menor atividade contra gram-positivos.
3. Características Farmacológicas de Relevância Clínica
3.1 Mecanismo de Ação
As cefalosporinas, assim como todas os beta-lactâmicos, atuam inibindo a síntese da parede celular bacteriana. Ligam-se às proteínas ligadoras de penicilina (PBPs), inibindo a transpeptidação necessária para a formação do peptidoglicano. O resultado é uma parede celular defeituosa, que leva à lise osmótica e morte bacteriana.
O efeito bactericida é tempo-dependente (T>CIM), similar às penicilinas. Para máxima eficácia bactericida, a concentração sérica deve permanecer acima da CIM por pelo menos 60-70% do intervalo entre doses. Este conceito é fundamental para definir posologia e intervalos de administração.
3.2 Classificação por Gerações
A classificação em gerações reflete a evolução do espectro antimicrobiano:
| Geração | Características Principais | Representantes no HRT |
|---|---|---|
| 1ª | Melhor atividade contra gram-positivos (exceto enterococos e MRSA); atividade limitada contra gram-negativos | Cefalexina (VO), Cefazolina (IV/IM) |
| 2ª | Espectro expandido para gram-negativos; mantém atividade contra gram-positivos | Cefuroxima (VO/IV) |
| 3ª | Excelente atividade contra gram-negativos; menor atividade contra gram-positivos, exceto pneumococo; boa penetração no SNC | Ceftriaxona, Cefotaxima, Ceftazidima |
| 4ª | Espectro ampliado (gram-positivos e gram-negativos); estabilidade contra beta-lactamases cromossômicas (AmpC) | Cefepima |
3.3 Farmacocinética
Cefalosporinas de 1ª Geração
| Parâmetro | Cefalexina | Cefazolina |
|---|---|---|
| Via de administração | VO | IV, IM |
| Biodisponibilidade oral | 90-95% | - |
| Pico sérico | 1 h | 30 min (IV) |
| Meia-vida | 0,5-1,2 h | 1,8-2,2 h |
| Ligação proteica | 10-15% | 80-85% |
| Penetração no LCR | Não | Não |
| Excreção | Renal (>90%) | Renal (>90%) |
Cefalosporinas de 2ª Geração
| Parâmetro | Cefuroxima (axetil) VO | Cefuroxima IV |
|---|---|---|
| Biodisponibilidade oral | 37-52% (aumenta com alimentos) | - |
| Meia-vida | 1-1,5 h | 1-1,5 h |
| Penetração no LCR | Limitada | Moderada (meninges inflamadas) |
| Excreção | Renal (>90%) | Renal (>90%) |
Cefalosporinas de 3ª Geração
| Parâmetro | Ceftriaxona | Cefotaxima | Ceftazidima |
|---|---|---|---|
| Via | IV, IM | IV, IM | IV, IM |
| Meia-vida | 6-9 h | 1-1,5 h | 1,5-2 h |
| Ligação proteica | 85-95% | 30-40% | 10-17% |
| Penetração no LCR | Excelente | Excelente | Excelente |
| Excreção | Biliar (40%) + Renal (60%) | Renal (>90%) | Renal (>90%) |
| Intervalo usual | 12/12h ou 24/24h | 6/6h ou 8/8h | 8/8h |
Destaque - Ceftriaxona:
- Meia-vida longa permite dose única diária na maioria das indicações
- Excreção parcialmente biliar: não requer ajuste em insuficiência renal leve/moderada
- Contraindicação em neonatos: Pode deslocar bilirrubina da albumina; risco de kernicterus
- Não administrar com soluções contendo cálcio em neonatos (precipitação)
Cefalosporinas de 4ª Geração
| Parâmetro | Cefepima |
|---|---|
| Via | IV, IM |
| Meia-vida | 2 h |
| Ligação proteica | 16-19% |
| Penetração no LCR | Boa (meninges inflamadas) |
| Excreção | Renal (>85%) |
| Intervalo usual | 8/8h ou 12/12h |
4. Principais Usos Clínicos e Bactérias Sensíveis/Resistentes
4.1 Espectro de Cobertura por Geração
1ª Geração (Cefalexina, Cefazolina)
Bactérias sensíveis:
- Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA)
- Staphylococcus epidermidis sensível à meticilina
- Streptococcus pyogenes (grupo A)
- Streptococcus agalactiae (grupo B)
- Streptococcus pneumoniae (maioria das cepas)
- Escherichia coli (cepas comunitárias sensíveis)
- Klebsiella pneumoniae (cepas sensíveis)
- Proteus mirabilis
Bactérias resistentes:
- Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA)
- Enterococcus spp.
- Listeria monocytogenes
- Pseudomonas aeruginosa
- Haemophilus influenzae (atividade variável)
- Anaeróbios (exceto alguns cocos gram-positivos)
- Enterobactérias produtoras de ESBL
2ª Geração (Cefuroxima)
Espectro adicional em relação à 1ª geração:
- Haemophilus influenzae (incluindo produtores de beta-lactamase)
- Moraxella catarrhalis
- Neisseria spp.
- Melhor atividade contra E. coli e Klebsiella
Mantém resistência a:
- MRSA, Enterococos, Pseudomonas, Listeria
3ª Geração (Ceftriaxona, Cefotaxima, Ceftazidima)
Ceftriaxona e Cefotaxima - espectro similar:
- Excelente atividade contra Enterobactérias
- Streptococcus pneumoniae (incluindo resistência intermediária à penicilina)
- Neisseria meningitidis
- Haemophilus influenzae
- Atividade moderada contra S. aureus MSSA
- Sem atividade contra Pseudomonas aeruginosa
Ceftazidima - espectro diferenciado:
- Atividade anti-Pseudomonas (principal diferencial)
- Menor atividade contra gram-positivos que ceftriaxona/cefotaxima
- Atividade contra Burkholderia cepacia
Resistentes a todas as 3ª geração:
- MRSA
- Enterococcus spp.
- Listeria monocytogenes
- Enterobactérias produtoras de ESBL
- Acinetobacter baumannii (maioria)
4ª Geração (Cefepima)
Vantagens sobre 3ª geração:
- Mantém atividade contra gram-positivos (similar à 1ª geração)
- Excelente atividade contra Enterobactérias
- Atividade anti-Pseudomonas (superior à ceftazidima em alguns estudos)
- Estabilidade frente a beta-lactamases AmpC (produzidas por Enterobacter, Citrobacter, Serratia)
- Menor indução de resistência
Resistentes:
- MRSA
- Enterococcus spp.
- Enterobactérias produtoras de ESBL ou carbapenemases
- Stenotrophomonas maltophilia
4.2 Indicações Principais em Pediatria
| Indicação | Cefalosporina de Escolha | Alternativa |
|---|---|---|
| Infecções de pele e partes moles (MSSA) | Cefalexina (VO), Cefazolina (IV) | Cefuroxima |
| Profilaxia cirúrgica | Cefazolina | - |
| ITU não complicada | Cefalexina, Cefuroxima | Ceftriaxona (se grave) |
| ITU complicada/Pielonefrite | Ceftriaxona, Cefotaxima | Cefepima |
| Otite média aguda (falha amoxicilina) | Ceftriaxona IM | Cefuroxima |
| Pneumonia comunitária (hospitalar) | Ceftriaxona | Cefotaxima |
| Meningite bacteriana | Ceftriaxona + Vancomicina | Cefotaxima + Vancomicina |
| Sepse sem foco definido | Ceftriaxona, Cefotaxima | Cefepima |
| Sepse/Infecção com suspeita de Pseudomonas | Cefepima, Ceftazidima | Associar aminoglicosídeo |
| Neutropenia febril | Cefepima | Ceftazidima |
| Infecções neonatais graves | Cefotaxima | Evitar ceftriaxona |
4.3 Padrões de Resistência Relevantes
Mecanismos de resistência às cefalosporinas:
-
Beta-lactamases de espectro estendido (ESBL): Hidrolisam cefalosporinas de 1ª a 4ª geração. Produzidas principalmente por E. coli e Klebsiella. Prevalência crescente no Brasil (15-30% em isolados hospitalares).
-
Beta-lactamases AmpC: Cromossômicas em Enterobacter, Citrobacter, Serratia, Morganella (grupo ESCPM). Podem ser induzidas durante tratamento com cefalosporinas de 3ª geração. Cefepima mantém atividade.
-
Alteração de PBPs: Mecanismo do S. pneumoniae resistente e do MRSA.
-
Diminuição de porinas: Reduz penetração em gram-negativos.
Dados epidemiológicos relevantes:
- S. pneumoniae: Resistência à ceftriaxona <5% no Brasil (mantém-se como opção para meningite)
- E. coli comunitária: 10-15% resistentes a cefalosporinas de 1ª geração
- E. coli hospitalar: 20-30% produtoras de ESBL
- Pseudomonas aeruginosa: 20-30% resistentes a ceftazidima; 15-25% resistentes a cefepima
5. Principais Regimes Terapêuticos
5.1 Cefalosporinas de 1ª Geração
| Indicação | Dose | Intervalo | Via | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Cefalexina | ||||
| Infecções de pele (impetigo, celulite leve) | 50-100 mg/kg/dia (máx. 4g/dia) | 6/6h ou 8/8h | VO | 10 dias |
| ITU não complicada | 50-100 mg/kg/dia | 6/6h ou 8/8h | VO | 7 dias |
| Faringoamigdalite (alternativa) | 50 mg/kg/dia | 12/12h | VO | 10 dias |
| Cefazolina | ||||
| Infecções de pele moderadas/graves | 50-100 mg/kg/dia (máx. 6g/dia) | 8/8h | IV | 7-14 dias |
| Osteomielite/Artrite séptica (MSSA) | 100-150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 4-6 semanas |
| Profilaxia cirúrgica | 30 mg/kg (máx. 2g) | Dose única pré-op | IV | - |
| Endocardite (MSSA) | 100 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 6 semanas |
5.2 Cefalosporinas de 2ª Geração
| Indicação | Dose | Intervalo | Via | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Cefuroxima axetil (VO) | ||||
| OMA (alternativa) | 30 mg/kg/dia (máx. 1g/dia) | 12/12h | VO | 10 dias |
| Sinusite | 30 mg/kg/dia | 12/12h | VO | 10-14 dias |
| ITU | 30 mg/kg/dia | 12/12h | VO | 7-10 dias |
| Cefuroxima (IV) | ||||
| Pneumonia | 100-150 mg/kg/dia (máx. 6g/dia) | 8/8h | IV | 7-10 dias |
| Infecções moderadas | 75-100 mg/kg/dia | 8/8h | IV | Conforme indicação |
5.3 Cefalosporinas de 3ª Geração
| Indicação | Dose | Intervalo | Via | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Ceftriaxona | ||||
| Meningite bacteriana | 100 mg/kg/dia (máx. 4g/dia) | 12/12h ou 24/24h | IV | 7-14 dias |
| Pneumonia comunitária grave | 50-75 mg/kg/dia (máx. 2g/dia) | 24/24h | IV | 7-10 dias |
| ITU complicada/Pielonefrite | 50-75 mg/kg/dia | 24/24h | IV | 10-14 dias |
| OMA (dose única) | 50 mg/kg (máx. 1g) | Dose única | IM | - |
| Febre tifoide | 50-75 mg/kg/dia | 24/24h | IV | 10-14 dias |
| Sepse | 75-100 mg/kg/dia | 12/12h ou 24/24h | IV | 10-14 dias |
| Cefotaxima | ||||
| Meningite bacteriana | 200-300 mg/kg/dia (máx. 12g/dia) | 6/6h ou 8/8h | IV | 10-14 dias |
| Sepse neonatal | 100-150 mg/kg/dia | Ver tabela neonatal | IV | 10-21 dias |
| Infecções graves | 150-200 mg/kg/dia | 6/6h ou 8/8h | IV | Conforme indicação |
| Ceftazidima | ||||
| Infecções por Pseudomonas | 150 mg/kg/dia (máx. 6g/dia) | 8/8h | IV | 10-14 dias |
| Fibrose cística (exacerbação) | 150-200 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 14-21 dias |
| Meningite por gram-negativos | 150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 21 dias |
5.4 Cefalosporinas de 4ª Geração
| Indicação | Dose | Intervalo | Via | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Cefepima | ||||
| Neutropenia febril | 150 mg/kg/dia (máx. 6g/dia) | 8/8h | IV | Até resolução |
| Sepse grave/Choque séptico | 150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 10-14 dias |
| Pneumonia hospitalar | 100-150 mg/kg/dia | 8/8h ou 12/12h | IV | 10-14 dias |
| Meningite | 150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 14-21 dias |
| Infecções por Pseudomonas | 150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | 10-14 dias |
| Infecções por Enterobactérias AmpC+ | 100-150 mg/kg/dia | 8/8h | IV | Conforme indicação |
5.5 Ajustes em Situações Especiais
Insuficiência Renal
| Fármaco | ClCr 30-50 mL/min | ClCr 10-30 mL/min | ClCr <10 mL/min |
|---|---|---|---|
| Cefalexina | 100% dose | 50% dose | 25-50% dose |
| Cefazolina | 100% dose, 12/12h | 50% dose, 12/12h | 50% dose, 24/24h |
| Cefuroxima | 100% dose | 50% dose | 25% dose |
| Ceftriaxona | Sem ajuste | Sem ajuste | Sem ajuste (máx. 2g/dia) |
| Cefotaxima | 100% dose | 50% dose | 25% dose |
| Ceftazidima | 100% dose, 12/12h | 50% dose, 12/12h | 50% dose, 24/24h |
| Cefepima | 100% dose, 12/12h | 50% dose, 24/24h | 25% dose, 24/24h |
Neonatos
| Fármaco | Idade/Peso | Dose | Intervalo |
|---|---|---|---|
| Cefazolina | Todas as idades | 50 mg/kg/dia | 12/12h |
| Cefotaxima | ≤7 dias | 100 mg/kg/dia | 12/12h |
| >7 dias | 150 mg/kg/dia | 8/8h | |
| Meningite ≤7 dias | 100-150 mg/kg/dia | 12/12h | |
| Meningite >7 dias | 150-200 mg/kg/dia | 8/8h | |
| Ceftazidima | ≤7 dias | 100 mg/kg/dia | 12/12h |
| >7 dias | 150 mg/kg/dia | 8/8h | |
| Cefepima | Todas as idades | 100 mg/kg/dia | 12/12h |
| Meningite/Sepse grave | 150 mg/kg/dia | 8/8h |
Ceftriaxona em neonatos:
- CONTRAINDICADA em menores de 28 dias (risco de deslocamento de bilirrubina)
- NUNCA administrar com soluções contendo cálcio (precipitação fatal descrita)
- Se necessário em >28 dias: usar com cautela, não misturar com cálcio
6. Principais Efeitos Colaterais e Cuidados Clínicos
6.1 Reações Adversas
Comuns (>1%)
- Gastrointestinais: Diarreia (2-5%), náuseas, vômitos
- Cutâneas: Exantema maculopapular (1-3%)
- Locais: Flebite (IV), dor no local da injeção (IM)
- Laboratoriais: Eosinofilia, elevação transitória de transaminases
Incomuns (0,1-1%)
- Candidíase oral ou vaginal
- Teste de Coombs direto positivo (sem hemólise)
- Trombocitose (especialmente ceftriaxona)
- Elevação de ureia/creatinina
Raras (<0,1%)
-
Reações de hipersensibilidade:
- Anafilaxia
- Síndrome de Stevens-Johnson/NET
- Nefrite intersticial
- Anemia hemolítica
-
Hematológicas:
- Neutropenia (uso prolongado)
- Trombocitopenia
-
Neurológicas:
- Encefalopatia (especialmente cefepima em insuficiência renal)
- Convulsões
-
Biliares (específico da ceftriaxona):
- Pseudolitíase biliar (“lama biliar”) - geralmente assintomática e reversível
- Incidência: 15-45% em crianças com uso prolongado
-
Colite pseudomembranosa: Associada a Clostridioides difficile
6.2 Alertas de Segurança Específicos
Reatividade cruzada com penicilinas:
- Historicamente estimada em 10%; dados atuais sugerem 1-2%
- Reação cruzada maior com cefalosporinas de 1ª geração (cadeia lateral similar à penicilina)
- Pacientes com anafilaxia a penicilinas: evitar cefalosporinas ou realizar teste cutâneo
- Pacientes com reações não graves a penicilinas: cefalosporinas geralmente seguras (observação)
Neurotoxicidade da cefepima:
- Risco aumentado em: insuficiência renal, idosos, doses elevadas
- Manifestações: confusão, mioclonias, convulsões, coma
- Conduta: suspender cefepima, ajustar dose conforme função renal
- Geralmente reversível em 24-72h
Ceftriaxona - cuidados específicos:
- Neonatos: Contraindicada <28 dias; cautela até 41 semanas de idade corrigida
- Incompatibilidade com cálcio: Não administrar com soluções contendo cálcio (Ringer lactato, NPT)
- Pseudolitíase biliar: Mais comum com doses >80 mg/kg/dia e uso >10 dias
- Hiperbilirrubinemia: Pode elevar bilirrubina por competição pela albumina
6.3 Contraindicações
-
Absolutas:
- História de anafilaxia a qualquer cefalosporina
- Ceftriaxona em neonatos <28 dias
- Ceftriaxona com soluções contendo cálcio em neonatos
-
Relativas:
- História de anafilaxia a penicilinas (avaliar risco-benefício)
- Insuficiência renal grave sem ajuste de dose (especialmente cefepima)
6.4 Interações Medicamentosas Relevantes
| Interação | Cefalosporina | Mecanismo | Conduta |
|---|---|---|---|
| Aminoglicosídeos | Todas | Nefrotoxicidade aditiva | Monitorar função renal |
| Furosemida | Todas | Nefrotoxicidade aditiva | Monitorar função renal |
| Cálcio IV | Ceftriaxona | Precipitação | Contraindicado em neonatos |
| Anticoagulantes | Todas | Possível aumento do INR | Monitorar coagulação |
6.5 Monitorização
Uso geral:
- Função renal (especialmente com aminoglicosídeos)
- Hemograma em uso prolongado (>2 semanas)
- Sinais de colite (diarreia persistente)
Cefepima:
- Função renal obrigatória
- Sinais de neurotoxicidade (especialmente se clearance reduzido)
Ceftriaxona (uso prolongado):
- Ultrassonografia abdominal se sintomas biliares
- Função hepática
7. Conclusão
As cefalosporinas representam uma classe versátil e fundamental no arsenal terapêutico pediátrico. A compreensão das diferenças entre as gerações permite a seleção racional do antimicrobiano mais adequado para cada situação clínica.
Pontos-chave para a prática clínica:
-
1ª geração (cefalexina, cefazolina): Excelentes para infecções estafilocócicas (MSSA) e estreptocócicas; primeira escolha para infecções de pele e profilaxia cirúrgica.
-
2ª geração (cefuroxima): Opção intermediária com melhor cobertura de Haemophilus e Moraxella; útil em infecções respiratórias.
-
3ª geração:
- Ceftriaxona/Cefotaxima: Pilares do tratamento de meningite, sepse e infecções graves por gram-negativos. Cefotaxima preferida em neonatos.
- Ceftazidima: Reservada para infecções por Pseudomonas.
-
4ª geração (cefepima): Primeira escolha em neutropenia febril e infecções com risco de patógenos AmpC-positivos; atenção à neurotoxicidade em insuficiência renal.
-
Ceftriaxona em neonatos: CONTRAINDICADA em <28 dias e NUNCA com soluções contendo cálcio.
-
Resistência bacteriana: A emergência de ESBL limita progressivamente a utilidade das cefalosporinas em infecções hospitalares; vigilância epidemiológica local é essencial.
O uso criterioso das cefalosporinas, respeitando o espectro de cada geração e evitando uso desnecessário de gerações avançadas, contribui para preservar a eficácia desta classe essencial.
8. Referências
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Última atualização: Dezembro 2025